❝ Eu não estou perguntando se você quer que eu fique. Estou dizendo que vou ficar e pronto. Certo, não precisa. Eu sei, você não precisa de nada e de ninguém, além de ficar sozinha. Vamos então encarar a coisa desta forma: a casa precisa de mim. Logo o chão estará coberto de lenços de papel, haverá sobras de chá de cidreira espalhadas por todo apartamento e o controle remoto da sua televisão vai estar lambuzado de Nutella, especialmente a tecla que libera a dublagem de O Diário de Bridget Jones. Não vou deixar você fazer isso, nem transformar seu lar num cativeiro e tampouco você assistir essa lenga-lenga pela milésima vez, pela milésima vez por causa de um idiota, pela milésima em mau português. Não esquenta, eu vim preparado, não vou precisar ir até em casa arrumar minhas coisas. Já está tudo comigo nesta mochila que eu organizei quando você me disse que estava saindo com aquele cretino. Sim, sim, eu já sabia da fama, apenas não quis cortar seu barato, você estava tão animadinha e minha mãe me ensinou aos gritos que a gente não deve dar vereditos prematuros em relação aos outros. Vai que eu estava errado? Acontece que eu não estava, e seu tivesse te avisado eu teria dito “eu avisei” quando você me ligou toda chorosa informando do auê. Minha tarefa é passar o fim de semana vigiando seu telefone, sua internet, selecionando quem você vai atender, com quem você vai se comunicar. Existem amigos com quem se faz besteira, e amigos que evitam besteiras, sou mais dessa segunda turma. Enquanto eu lavo sua louça, vê se esfrega um xampu nessa cabeça e vem aqui me contar isso direito. Vou fazer um café, a noite, esta em especial, é uma criança gasguita querendo mamar onde só sai pedra. O que eu não entendo, criatura, é como você continua estacionando seu coração em local proibido. Você já não foi multada que chega? Onde mais precisa doer pra você levar jeito? Uma garota tão bonita e gente boa. Se eu não fosse seu melhor amigo, se eu não fosse pateticamente louco de amor por aquela uma, se eu fosse outra pessoa, sei lá, um cara num bar qualquer ou no McDonald’s, eu ia deixar você mexer nas minhas batatinhas. Só estou dizendo que você desperta minha atenção, justamente pelo que você mais se desdenha, como seus ombros franzinos de carregar o continente inteiro nas costas ajudando todo mundo, e seu queixinho geneticamente meio torto, que dá a entender que você está sempre invocada da vida, seu jeito tímido de andar, as mãos no bolso do jeans apertado, toda erradinha, como se tivesse sempre alguém apontando e rindo de você. Você sabe, se eu estou aqui, é porque sou seu fã, porque você vale a pena, porque eu te gosto, e enquanto você tenta fazer esses seus lances rolarem com esses babacas, eu sinto sua falta, de conversar contigo, de ganhar aquele seu “oi” reto, com cara de sono e os olhos líquidos, na primeira aula de laboratório da manhã. Eu sei, eu sei, parece que estou tirando vantagem da sua fragilidade temporal para flertar contigo, porque eu sou um rapaz, e você uma garota e blá-blá-blá. Não é isso, baixa a guarda, está tudo bem, quando você vomitou no meu colo naquela viagem para São Paulo das Missões deu pra ver de cara que você não era pra mim. Lembra depois, nosso fiasco na enfermaria? Você toda grogue e quase tendo orgasmos por efeito do Tramal e eu do lado de fora, sôfrego como um pai de estreante. Eram só umas pedras no rim. Isso, adoro te ver assim, fico todo orgulhoso de fazer você rir, foi pra isso que eu vim. Eu não sei o que dá na cabeça de um sujeito desses te fazer triste assim. Terminando de enxaguar esses pratos a gente vai até o sofá dar um jeito nessa dor, talvez eu tire algum som do James Taylor ou escove seus cabelos ou faça uma massagem profissional nos seus pés, vamos tirar esse joanete da sua alma. Se nada funcionar, a gente cata uma navalha e faz uns cortes sequenciais no seu braço pra liberar endorfina e trapacear a dor, como fez o dr. House naquele episódio, lembra? Não foi contigo que eu vi? Claro que foi, você deve ter embarcado no sono, como sempre. Como pode? É só te aconchegar de conchinha, contar até dez e pronto: você dormiu. E eu fico me sentindo o cara-todo-poderoso que está lá pra te proteger. Sei que você deve achar que nunca mais conseguirá transar na vida, que ninguém nunca pedirá pra ser seu marido e aquela coisa de felicidade está cada vez mais longe, ou que todas as estrelas da sorte daqui a pouco cairão na sua testa. Mas pelo amor dos céus, é só um relacionamento falido, mais um, grande áfrica. Olha o lado bom, chora hoje, deixa seus olhos líquidos escorrerem toda essa maquiagem fúnebre, desenha com rímel preto um novo dia na minha camiseta. Amanhã, de rosto novo, a gente pinta uma carinha feliz e circense, e eu te levo de carro pra ver o mar. Ninguém vai perceber seu riso postiço, o mundo inteiro vai estar ocupado sorrindo com você. Confia em mim, às vezes quem está de fora enxerga melhor. E daqui vejo seu sorriso, sei bem do que ele é capaz de fazer.
— (Gabito Nunes)
(Source: brendaacs)
❝ Eu sempre tenho a sensação de que perdi algo. Seja a chave do carro, a carteira de identidade, o livro da escola. E entro fácil no desespero e fica cada vez mais difícil de sair, parece armadilha planejada na medida do meu corpo. Sempre acho que perdi algo e que isso nunca mais vai voltar, que foi pra algum lugar longe-longe pra nunca mais me ver. E dizer bem baixinho que não vai sentir minha falta, porque sei lá. Não existe isso de ir e voltar, só aquilo que vai pra lugar algum e, sem querer, bate na sua porta de novo. Acho que tudo é assim comigo, as pessoas voltam por acaso. Só por acaso. Sempre acho que perdi algo; seja o coração, você, as nuvens, o rosa clarinho da rosa do quintal. Que as coisas nos abandonam na noite mais fria de janeiro e nem o clima de férias vai ajudar a voltar ao ritmo, que tudo muda de direção sim e é andando de costas pra você. E você assiste com o membro cardíaco apertadinho, como se estivesse espremendo num pequeno frasco de perfume que não sai cheiro algum, a vida cair e cair no abismo sem ter resgate. Tenho a sensação de que me esvaí a cada tempo que passou, que me esvaí por cada segundo que virá e todas as trovoadas que fazem eu me esconder embaixo do lençol fino. Que eu sou uma garrafa de refrigerante que alguém deixou sem a tampinha e fui perdendo o gás até virar um xarope açucarado que todos - todos, todos - ficam receosos ao beber. “É veneno”, dizem, “e vai te matar aos poucos”. Assim me perco no meio de nada, no meio de mim mesma, no meio do arame farpado que corta a minha pele de tantas maneiras. De tantas maneiras…Eu sempre tenho a sensação de que perdi algo. Seja o pão fresco da esquina, a oportunidade de te fazer sorrir, o momento exato do adeus e o abraço fracionado. Seja a entrada da peça, o papel principal, o script da trama, o beijo dos figurantes. Seja a periferia da imagem, o ponto desfocado da foto, a pessoa desfocada do mundo. E, por um ou dois ou mais instantes, fico à beira do oceano com o vazio sei lá aonde e sei lá de quê me dizendo que um pedaço fugiu pra voltar nunca mais. Nunca mais, sente o arrepio na nuca ao ouvir essas duas palavras tão mal interpretadas? Sempre acho que perdi a página rasgada do diário por dentre as roupas sujas e quando vejo onde a folha realmente se encontra, está presa no varal com dois pregadores esperando as lágrimas do dia escorrer. Esperando que tudo se desprenda, caia no chão e dali nasça uma enorme flor que possa tampar o pôr-do-sol e fazer com que nós não conseguíssemos perceber a falta de luz. Fazer com que algo excepcional brote de um resto de porcaria nenhuma que você torce o nariz ao olhar. Eu sempre tenho a sensação de que perdi algo e sei que um desses algo, de alguma forma, sou eu.
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